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Recesso mental

Faz umas três semanas desde que meu cérebro parou. Ele pede férias, e eu concordo.

Entretanto

De repente a gente se acostuma com o vento frio que sopra de alguma direção desconhecida. Se acostuma também com as feridas nas mãos, que nunca se curam, e com os olhos baixos, um pouco amargos, que não permitem divisar horizonte algum.Talvez a gente supere a questão da assimetria, do lado direito ser mais rústico que o esquerdo. Pode ser que num dia vazio a gente consiga caminhar pelas ruas, com uma música antiga na cabeça, com passos largos e lentos nos pés e a indiferença pelo mundo disfarçada atrás dos óculos escuros. Quem sabe a gente pára de esperar ligações, companhia ou compaixão, supere as fobias crescentes e vença os medos infantis. Na verdade, um dia a gente cria coragem para pôr a cara no mundo, mas isso do nosso jeito, contido, sem expansões ou excessos, que afinal não gostamos nem dos excessos nem da noite. Faremos tudo isso na segurança das manhãs claras, nos despedindo com um sorriso largo e uma mala nas costas. Caminharemos até o fim da rua e dobraremos a esquina, rumo...

Horas duráveis

Um leve tremor lhe sobe pelas costas frias, e sobe até tomar os dois olhos negros como lugar de repouso. O olhar, comandado pelo medo autoritário, vai por caminhos oblíquos, ultrapassando os vãos negros dos mistérios indecifráveis. Esse olhar assim cada vez mais marcado pela tristeza linear e amarga, só pode pertencer a alguém demasiadamente apegado à própria dor e que seja, de uma certa forma inconfessável, orgulhoso de sua melancolia. São olhos que se fecham ante a grandeza que oprime todo o ser, ante o cansaço que assola todo o corpo, ante o medo que consome toda a vida. As mãos, igualmente trêmulas, repousam rápida e nervosamente sobre os olhos, como se assim fosse possível impedir a torrente estúpida de lágrimas aflitas. O peito inócuo anseia por dar as respostas vazias que acolhe, mas algo impede que a voz tímida e áspera saia, ferindo confusamente o ar, contando o que é melhor ficar sem ser dito. Talvez seja medo, talvez orgulho. Talvez seja o gosto torturante que vê na tristez...

Uma vida em Davos-Platz

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"Era inquietante sob todos os aspectos. Hans Castorp estava entusiasmado pelo encontro que acabava de ter, e ao mesmo tempo sentia qualquer coisa como um temor nascente, uma angústia semelhante àquela que lhe causava a sensação de estar preso na mesma cela com a quase-oportunidade favorável: também o fato de Pribislav, havia muito olvidado, vir-lhe ao encontro ali em cima, na pessoa de Mme. Chauchat, fitando-o com aqueles olhos quirguizes, também isso fazia com que Hans Castorp se sentisse preso em companhia do inevitável e do irremovível – irremovível num sentido venturoso e atemorizador. Era um fato auspicioso, mas ao mesmo tempo fatídico, apavorante mesmo, e o jovem Hans Castorp sentiu algo como uma necessidade de socorro. No seu íntimo operavam-se movimentos vagos e instintivos que poderíamos qualificar de olhares, tateios e gestos em busca de apoio, conselho e ajuda. Sucessivamente, pensou em diversas pessoas, das quais, talvez, lhe fosse útil recordar-se." (Mann, Thomas...

Idiossincrasia

Semana passada tive que passar 5h na companhia de D. Logo após a primeira meia hora (quando ele descobriu que eu faço Letras) começou a me assombrar com perguntas do tipo “Qual é o certo: tv a cores ou tv em cores?”, para dizer que eu estava errada mal eu acabava de responder. Porém quando entramos na segunda hora a coisa toda se tornou muito mais profunda: ele me explicou por quê é errado chamar um “clarividente” simplesmente de “vidente” e tentou me provar, por A mais B, que “você” não existe como palavra (“afinal – dizia ele – ninguém aprende Eu, Tu, Ele, Você na escola... e se não é um pronome, não é uma palavra, e se não é uma palavra todo mundo fala uma palavra que não existe!”). Eu tentei por um bom tempo explicar para ele que não se deve confiar o que é uma língua ao que a gramática diz dela, que a língua é viva, a norma culta conservadora e todo aquele discurso político-lingüisticamente correto que se aprende no primeiro ano de Letras na USP. Cheguei ao ponto de dizer “pelo a...

Quando os olhos cantam e o pensar descreve

“Eu confio que a leitura da poesia pode nos conduzir a verdades tão altas quanto a ciência” Foi o que ele disse, do alto de seus olhos sóbrios e de seu sorriso cúmplice e contido, agora mais freqüente do que lhe é normal. E disse com sua sinceridade crua e exposta, como se fosse um ardor dolorido que o impelisse a tal, embora de um jeito tão lúcido que me transtornou a retidão do pensamento – ele, que diz nunca ter sido tocado pela epifania da verdade, crê no poético como o transpor da brevidade ilusória, e isso ma traz rebuliços de alma. Com sua postura séria, própria de um grande homem transtornado pelo mundo bruto, demonstra sua simpatia por mim de um modo secreto, confidencial: com um leve pender de cabeça, a mão na cintura e um olhar que guarda em si o sorriso ao mesmo tempo acanhado e desbravador das mentes constantemente aflitas. Não sei até que ponto isso é verdade, mas é assim que imagino. Eu o entendo dentro do que ele é em minha concepção, e por isso lhe respondo os gesto...

As maravilhas da vida besta

O calor é grande. O suor é constante e o sono é eterno. Certas coisas, "muito entretanto", dão uma alegria besta, tão verdadeira e intensa que chego a envergonhar-me ao perceber que estou sorrindo de orelha a orelha e de olhos arregalados, enquanto as pessoas discretamente se afastam da "pobre menina doida que ri sozinha". No meu cabelo um creme que tem mais cheiro de chocolate do que qualquer chocolate seria capaz de ter, me deixa enjoada. Mas eu não ligo. Hoje estou saltitante: a prova de latim já passou, amanhã é feriado, e outras kleine Sachen mehr. Nem ligo se vou passar os proximos três dias fazendo resenha de morfologia, análise semiótica e preparando texto para seminário de literatura portuguesa. Não me importo. Hoje a Áustria salvou meu dia!